11.03.07

Pirata: fantasia ou rótulo?

Fonte: Mauro Cabral

O povo brasileiro ainda está vivenciando um processo de resgate de sua cidadania, mesmo depois de várias conquistas. Trata-se de um processo lento, passo a passo, inacabado e que apresenta dúvidas, incertezas e incoerências.

De um lado ganhamos consciência sobre ecologia e meio-ambiente, pregamos a distribuição de renda mais justa e cobramos probidade de nossos administradores. De outro, infelizmente, não fazemos aquilo que só depende de nós. Embora não sejamos, todos, deputados e senadores, existe uma lei que mantemos em vigor, que relutamos para revogá-la: a "Lei de Gérson". Sob o amparo desta lei agimos de forma individual, sempre querendo levar vantagem sobre os outros. Nossas atitudes demonstram isso, desde a ultrapassagem de "otários" no trânsito que aguardam pacientemente que sua fila volte a andar até a utilização de software pirata.

Na primeira situação a demonstração de "esperteza" é explícita, para todos verem , enquanto que na segunda é mais recatada, enrustida. A utilização de cópia pirata de software, por ser individual e geralmente residencial, não é ostensiva, e se ninguém vê isto não macula a imagem de "politicamente correto" e nem fere padrões de modismo e de status. Se alguém bebe uísque falsificado sente na pele (ou melhor, na cabeça) as conseqüências; se usa uma roupa de grife falsificada corre o risco das chacotas dos amigos.

Por que, então, no caso de software agimos como quem compra fita cassete pirata em posto de estrada? É desta forma que queremos deixar o 3º mundo?

Se as taxas de desemprego estão altas, precisamos de mais empregos. O uso de software legal é uma forma de incrementar esta atividade indispensável e promissora em um país que tem a criatividade como um dos pontos a seu favor em um mundo globalizado e competitivo. Aliás, é bom lembrar que a criatividade é uma das características que tem propiciado a oportunidade de brasileiros trabalharem nas sedes de empresas americanas de software.

Devemos demonstrar ao mundo que se os cidadãos brasileiros tiverem de aceitar um rótulo será o de "caras pintadas", defendendo sua Constituição e soberania. E que pirata nada mais é que uma fantasia de carnaval.

Mauro Cabral é diretor da ABES - Associação Brasileira das Empresas de Software



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